O som vem chegando devagar, esquecendo a velocidade que naturalmente o compõe. As batidas do meu coração misturam-se com a melodia da música no rádio. Eu deveria me levantar agora? Ou poderia ficar mais alguns minutos na cama?

Eu já não sei mais.

Tudo o que eu achava que sabia já se foi, restou um gosto amargo como o de um café no fim. Mas eu me esforço, em um suspiro eu sigo em frente.

Primeiro eu saio da cama. Meus pés tocam o chão gelado do quarto, meu corpo sente um arrepio e o som do rádio se intensifica. Agora, misturando-se com o trem que passa lá fora, lembra-me das incertezas e da inconstância da vida. É quase um lembrete de que as coisas não são tão certinhas quanto eu gostaria.

É final de abril, as cerejeiras já se foram e eu sinto falta de algo que eu não sei bem o que é. Falta algo aqui dentro, algo que eu não posso ver e não saberia dizer ao certo como encontrar. Suspiro novamente e fecho os olhos.

Lembro de você.

De como éramos inseparáveis. Das pétalas das cerejeiras caindo no meu cabelo enquanto você lentamente as retirava com um sorriso no rosto, dizendo que era uma sorte inimaginável aquilo acontecer. Sorrio com o canto da boca.

Por um breve segundo consigo sentir o cheiro das flores e o vento no meu rosto.

Mas dura apenas um segundo, o frio nos meus pés interrompe qualquer pensamento sutil.

Caminho lentamente até a janela e observo o sol lá fora. Algumas pessoas nas plantações, começando a sua jornada matinal de cuidados com a lavoura. O cotidiano e sua simplicidade.

Era o que você mais gostava e talvez seja isso que mais doa eu ver: o ritmo diário, as pessoas fazendo as mesmas coisas todos os dias com suas banalidades e trivialidades. O mesmo do viver e o viver do mesmo. Eu só sei que eu odeio pensar sobre isso sem você.

Talvez o que falte aqui dentro seja esse perceber da vida comum. Um encontrar(se) com quem eu sou.

Sinto o cheiro do café.

Saio correndo do quarto sem me importar com o piso gelado, sem me importar com o cabelo bagunçado ou o mau hálito matinal. Eu só quero chegar rápido nesse lugar, sentir esse cheiro, esse gosto, essa sensação de casa. Com você.

Meu coração acelera à medida que chego na cozinha. O sino na janela repete a melodia do rádio como um concerto, como se estivessem se ouvindo. Eu chego ofegante pronta para dizer bom dia, meu coração acelerado quase sai pela minha boca, mas tudo que eu vejo é a espuma na xícara de café e a máquina automática, na sua mais sutil banalidade.

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