CAPÍTULO 1: O caminho sagrado da biblioteca
Nunca gostei de comer sozinha. Sempre acordei cedo para conseguir tomar café da manhã junto com os meus pais antes de eu ir para a escola. O cheiro das flores na mesa, a meia luz da sala de estar e o sorriso acolhedor da minha mãe são memórias muito especiais. É claro que eu sabia que esses momentos não voltariam mais, mas preferia me agarrar fortemente nas emoções que eu guardava no meu coração do que negar a dor que eu sentia.
Faziam alguns dias desde a nossa mudança de cidade. Meu pai preferiu encarar a nova vida em um lugar diferente. Desde a morte da mamãe ele tentava criar um ambiente sem sofrimento para mim. Eu era muito grata pelo esforço dele e sei que ela também estaria. Mesmo com a dificuldade em expressar os seus sentimentos, ele estava ali por mim e isso era o mais importante. Era realmente importante.
O relógio apontava oito horas da manhã quando eu acordei e eu sabia que já estaria sozinha em casa. Levantei da cama e abri a janela do meu quarto. Propositalmente ele fora escolhido por ter acesso à vista mais bela da casa: via-se a floresta repleta de neve ao redor da nossa casa e, ao longe, a cidade, com seus prédios pequenos e suas ruas tranquilas.
Era início de março, dentro de um mês iniciaria meu primeiro ano no colegial. Uma época terrível para mudar de escola e precisar se adaptar com novos colegas de classe. Mas eu pensei tudo bem, dificilmente irão conseguir conversar comigo. O porquê? Bem, eu tenho permanecido isolada desde que a minha mãe se foi e tenho evitado me aproximar das pessoas.
Ao descer para a cozinha encontrei o café da manhã repousando na mesa. Na noite anterior, papai havia dito para eu sair e conhecer a cidade. Falou algo sobre uma biblioteca perto da nossa casa. Livros, um lugar de conforto para mim. Desde pequena gostava de histórias, era comum meus pais lerem para mim antes de eu dormir. O meu conto favorito era o da princesa Kaguya, embora eu sempre chorasse no final, era difícil entender o porquê dos amores se perderem no tempo. Não achava justo.
Decidi sair para conhecer a região. Não estava tão frio naquele dia, então coloquei apenas um suéter de lã. Ao abrir a porta de casa, uma visão muito bonita preencheu meu coração: era como se pedaços de algodão estivessem caindo do céu. Ao pisar no chão, meus pés ficaram repletos de neve, uma neve tão fofa que eu fiquei alguns instantes respirando aquele ar gelado, esperando que essa sensação pudesse aquecer meu coração. Sentimentos pulavam dentro de mim e eu cheguei a sorrir levemente.
Depois de alguns instantes eu ouvi um barulho. Olhei para os lados e não vi nada, somente as árvores balançando com a leve brisa gelada da manhã. Novamente um barulho, talvez um sussurro, dessa vez vindo bem à minha frente, no meio das árvores. Cuidadosamente percorri o caminho até o som, contudo, ao chegar próximo às árvores, nada havia lá, a não ser uma trilha que parecia ter sido esquecida há muito tempo, pois estava mal cuidada. Parecia algum caminho sagrado, pois as árvores tinham o shimenawa. Lembro quando minha mãe e eu visitávamos o templo e eu ficava contando quantas cordas entrelaçadas tinham em cada árvore. Ela sorria como o sol naquela época.
Senti um vento gelado no meu corpo ao tocar em uma das árvores. Lentamente me afastei e segui o caminho. O trajeto foi difícil porque a trilha estava descuidada, algumas vezes pensei em voltar para casa, mas algo fazia com que eu seguisse em frente. Algum tempo depois ouvi novamente o som, agora mais como uma melodia. Alguns passos à frente, percebi que a floresta abria-se para um torii, um dos portais sagrados dos templos. A floresta estava tão densa que alguns galhos já estavam avançando por entre o portal e, enquanto observava, notei um pequeno colar de contas que se agitava no galho da vegetação que adentrava o portal.
Sem pensar duas vezes, andei até o portal e peguei o colar. Ao tocá-lo, senti como se algo tivesse sido encontrado, algo há muito tempo procurado e desejado. Não sabia o motivo, mas lágrimas escorriam dos meus olhos. Senti uma sensação parecida quando minha mãe havia me dado o seu último abraço. Coincidentemente, estávamos no portal de um templo. Juntamente com essas memórias, deixei-me cair e desabar em lágrimas, até que senti meu coração aquecer, era como se aquele abraço estivesse de volta. Nesse instante vi algo se mover logo a minha frente, por entre as árvores. Então, atravessei o portal com o colar apertado entre os meus dedos.
O que se seguiu é difícil de descrever em palavras. Senti que a brisa gelada havia se intensificado para um vento forte, que fez com que eu sentisse frio. Meu corpo estremeceu e fiquei arrepiada. Era como se algo tivesse separado meu corpo do meu espírito e eu senti como se estivesse flutuando por um tempo. Segundos. Ao apertar forte os olhos vi que nada tinha acontecido, eu estava lá, do outro lado do torii, com um colar nas mãos.
Segui caminho e, pouco tempo depois, vi um jardim, mais a frente havia um prédio grande, com portas que pareciam estar fechadas. Fiz a volta no prédio e observei que a entrada estava para o lado contrário pelo qual havia chegado. O prédio erguia-se majestosamente, apresentando a famosa biblioteca da cidade.
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