De acordo com alguns dicionários, as borboletas são definidas como insetos lepidópteros na última metamorfose ou, para alguns poetas, como seres especialmente abençoados com transições repletas de luz.
Assim como a composição de cores que está em tudo o que enxergamos, se falássemos de música, por exemplo, poderíamos citar as nuances claras que as notas musicais desempenham na partitura, e de como elas estabelecem feixes de luz ao nosso redor. Mas, ao falar das borboletas, colocaríamos na descrição tudo que elas representam para o Pedro.
Para ele, tudo começou com pequenos pontos no olho esquerdo. Pareciam borboletas dançando. Com cores avermelhadas, elas descreviam uma onda em seu olho, uma agitação que logo passou para o olho direito, completando, assim, seu primeiro ciclo. Estava na faculdade, no auge dos seus 27 anos, com planos para seguir na carreira de oceanógrafo, e as borboletas insistiam em segui-lo. No início, ele pensou que fosse apenas a luminosidade forte de alguns ambientes, mas como uma sinfonia de Tchaikovsky, logo perpetuou-se rápida e hostil. Tornaram-se frequentes e, quando percebeu, já era tarde demais. O processo de cegueira já estava iniciando seu capítulo final.
Casou-se aos 35 anos com uma moça chamada Marta. Médica oftalmologista, conhecera Pedro em um atendimento e logo encantou-se pelo amante das ondas e dos golfinhos, dando-lhe, aos 37 anos, seu primeiro filho.
Leonardo havia nascido em uma tarde chuvosa de outono, que rapidamente tornar-se-ia um dia abençoado. As pequenas borboletas de Pedro descreviam agora um movimento circular ao redor de tudo que ele via. As cores, para o oceanógrafo, formavam um gradiente tão belo, que até ele já estava conformado com elas. E encantou-se com a luz ao redor do pequeno filho. Eram em tons de azul, assim como o mar que ele tanto amava.
Porém, até as borboletas terminam sua transição.
Agora as tardes eram acinzentadas. Queria levar Leonardo para conhecer o mar, mas tinha medo de não conseguir percebê-lo junto de si. Então, Marta sugeriu que fossem os três, mas ela ficaria ao longe, para proporcionar ao pai um momento com o mar e o filho.
No gradiente de cores, o cinza permaneceu forte. Para o pequeno menino de cinco anos, o dia estava ensolarado e azul. As pedrinhas na areia tocavam seus pés e ele demonstrava sorrisos de surpresa. Para Pedro, o barulho das ondas era reconfortante e triste, ao mesmo tempo. Seu filho estava estarrecido com a primeira visão do mar e ele estava inconformado com o primeiro sinal do fim das borboletas.
Ao tocar as conchas, ele pensou em cada sentido. Em como o tato, o olfato, o paladar, a audição e a visão eram importantes, mas que nada superava o que ele sentia no peito.
Uma pequena lágrima percorreu seu rosto com a visão acinzentada do filho, ao longe, tocando os pés na água. Marta saíra correndo para o acompanhar e Pedro, ao perceber que as lágrimas se misturaram com as borboletas, riu por alguns instantes. E elas se foram. Pouco a pouco ele perdeu a visão acinzentada do filho e do mar. Como se o ciclo tivesse, finalmente, se extinguido.
Ficou atordoado por alguns instantes, desejou voltar ao passado, desejou ter conhecido Marta antes. Desejou tantas coisas que não sabia mais se ainda existia ou se tudo fora um sonho. Ouviu uma voz ao longe, seu coração bateu mais forte e ele percebeu que estava vivo, afinal. Seu corpo estava ali, inteiro, porém seu coração estava quebrado, com tanta raiva das borboletas que as praguejou por alguns segundos.
Tentou decifrar a frase que ouvia, com dificuldade se levantou e pediu ajuda. Sua voz saia rouca, agora não permaneceram as borboletas em sua visão, mas uma imagem distorcida e escura de tudo que estava ao seu redor. Contrariando qualquer razão e pensamento de segurança, moveu-se sozinho rumo ao mar. Agora, mais do que antes, lágrimas brotaram de seus olhos. Lembrou-se da primeira vez que vira o oceano e chorou ainda mais. Contudo, seu coração foi estilhaçado com uma frase que ele jamais vai esquecer. Ouviu o pequeno Leonardo chamar pelo seu nome e gritar, logo em seguida, “Papai, vem ver o mar.”.
E ele nada viu além de escuridão.
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