O senhor Carlos abotoou a camisa branca com maestria. Evitou tocar os dedos úmidos do banho no tecido fino e elegante que compunha uma aparência majestosa. O espelho do quarto, com pequenas manchas douradas nas madeiras envelhecidas de suas bordas, refletia seu perfil com pequenas distorções, devido ao vapor do chuveiro. Ele limpou-o com a toalha e reclamou baixinho por Ana não ter colocado um pouco de detergente neutro antes dele entrar no cômodo. Ela, tão atrapalhada, não cuidava tão bem da casa quanto ele gostaria, o que o obrigava a chamar a atenção da empregada. Essa, de tão velhinha que se encontrava, não ligava para o patrão, só pensava no sítio que iria comprar com o dinheiro da aposentadoria.

Dinheiro.

Disso o senhor Carlos entendia bem. Dono de um dos maiores escritórios da cidade de Monte Belo, ele sabia o que era poder e influência, já que começara a trabalhar cedo no escritório da senhora Margarida, sua falecida esposa. Ela possuía os cabelos negros como uma noite sem estrelas e os olhos tão verdes quanto os musgos do inverno. Sorte é pouco para esse rapaz, repetiam os moços da cidade, que nutriam esperança por um dia conquistar as graças da dama. Ela dispunha de uma herança considerável de família, o que facilitou a entrada do aspirante ao cargo de assistente do principal juiz de Minas Gerais.

Após vestir-se, andou rapidamente pela casa. As cortinas brancas balançavam indicando que o vento estava agitado. O farfalhar das árvores o incomodou por alguns instantes, mas ele rapidamente esqueceu quando entrou na cozinha. Retirou algumas coisas da geladeira e observou a pequena orquídea que reluzia suas flores na janela. O trabalho de composição das cores amarelas e douradas da planta, misturava-se com a paisagem verde e elegante do jardim da mansão, a qual era invejada por muitas pessoas da alta sociedade. Sua falecida esposa amava orquídeas e ele fazia questão de presenteá-la em todas as datas importantes. Não tinha como esquecer, pensava ele.
Quando colocou as coisas na sacola, Ana entrou e perguntou discretamente: “O senhor precisa de algo?”. Carlos ignorou a pergunta e seguiu seu caminho para a garagem. Durante o trajeto algumas lágrimas escorreram de seu rosto, lembrando-o do dia em que se casou com Ida – apelido da senhora. Seu coração começou a bater forte, tão forte que se misturou com aquele farfalhar que o incomodou. Pegou seu carro de luxo e seguiu um caminho comum nos dias em que estava triste.

O local era afastado do centro da cidade e revelava um ambiente que não condizia com a sua posição social. A casa, velha, estava repleta de pichações e marcas de arrombamento. Ao chegar, o senhor Carlos abriu a porta da residência e desceu ao cômodo inferior. Seus passos faziam um barulho assustador no piso de madeira. Jogou o pacote com os mantimentos no chão, praguejando para o vulto que estava alguns passos dele. O vulto virou-se devagar em sua direção e aos poucos se revelou na luz pálida, vinda de uma fresta do piso superior.

Era o farfalhar das árvores, pensou Carlos, em seu último segundo, ao atirar em seu próprio rosto.

E então o vapor se desfez.

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