Lembro do dia em que Lyfalia presenteou-me com a flauta. A luz da lua em todos os seres.”. Era uma das coisas mais lindas que já vi, além do sorriso de minha mãe. Um ser extremamente radiante.
Diante de nós está um lugar desolado. As casas de pedra são rodeadas por escombros cinzentos e formam as maiores edificações do lugar. Porém, devido aos maus cuidados, os ferimentos das construções as derrubariam com apenas uma tempestade.
Peço para Lyfa tomar cuidado.
Há muitos casebres de madeira. Malfeitos.
A moradia dos homens é feita com o que se pode encontrar – geralmente lixo.
Um homem de aspecto feroz e grosseiro nos recebe com um pão. “Não comerei”, eu penso. Agradeço e sigo a minha caminhada.
Encontro uma criança remexendo algumas latas em um grande buraco de lixo. Restos de comida e de carne humana espalham-se no buraco. O cheiro é insuportável. Ofereço o pão e ela aceita com um sorriso sincero. Um sorriso que lembra o de minha mãe.
Sinto algo ruim no ar, um cheiro horrível se espalha pelo povoado. O Sol estava vermelho e isso significava algo.
Ouço gritos.
A maior parte do povo de Midras corre de um local que está sendo incendiado. Vejo a fumaça escura. O cheiro. O cheiro que sinto é de demônios. Eles possuem um fedor que nunca se extingue e que causa dor e sofrimento por onde perpetuam os segundos de solidão.
Lyfalia e eu encontramos um na floresta de Kornil. Consegui sentir o cheiro de longe. A nossa sorte foi que ele não havia nos notado. Eu não estava pronto ainda.
E ainda não estou.
Aproximo-me cuidadosamente do local. Um bêbado pragueja contra os demônios gritando algo sobre duas crianças. Ele tenta combater as chamas. Passo sem ser notado. Não consigo vê-los, mas posso senti-los. Camuflo-me na fumaça acinzentada e ouço-os discutirem.
Vejo uma das crianças.
O vestido de algodão branco tornara-se uma nuvem cinzenta com pequenos cometas revestidos de sangue.
Silenciosamente canto uma canção élfica para Lyfa: o nosso sinal.
Ela já sabe o que fazer.
Afasto-me pela lateral dos demônios. Envolto na fumaça cinzenta eu miro uma flecha nas sombras escuras da fumaça. Um deles está naquele lugar. Ele, ao assustar-se com a flecha, solta a criança e pragueja. Retira lentamente a flecha como se nada o tivesse atingido. “Flecha élfica”, o demônio diz. Solta uma gargalhada ao companheiro e acrescenta: “Vamos brincar.”.
“Vamos!”, eu penso.
O demônio maior, o que foi acertado pela flecha, fala ao outro para cuidar do “Elfo nojento” enquanto ele some com a criança. O demônio menor fica desconfiado e discute com ele sobre o que é melhor fazer. Ele não quer ser enganado.
Enquanto isso acontece, Lyfa penetra cuidadosamente na casa em chamas e retira a criança com a sua delicadeza divina. Após deixar a criança em um lugar seguro, fareja a outra até encontrá-la. Quando as crianças já estão bem, ela solta um grunhido de aviso. Agudo, forte. O som que causa dor em qualquer ouvido que não é treinado. Os demônios param a discussão e notam que a criança não está mais na casa. O menor dá alguns passos para a esquerda e eu aproveito o momento e atiro uma pedra em sua cabeça. Quando o ouço reclamar eu soube que havia acertado. Ele reclama ao maior. Diz que ele estaria enganando-o para pegar a criança, pois nenhum Elfo seria tolo suficiente para enfrentar dois demônios. Eles começam a brigar.
Invisíveis. Contudo, previsíveis.
Enquanto eles brigam, eu saio cuidadosamente da casa. Precisava encontrar ajuda mágica antes que eles percebessem que o tolo não era o Elfo.
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