A floresta está escura. Ao anoitecer tudo fica com um tom pálido, típico de um dia chuvoso. Os musgos interrompem a sua jornada noturna enquanto toco suavemente o chão. “Dois passos”, eu penso. Dois seres encaminham-se na minha direção. Trezentos metros e eu demorei a perceber. Afinal, o que estava acontecendo comigo? Sinto o cheiro de sangue no ar. A minha pele está úmida e as folhas das árvores inclinam-se como se estivessem banhando o meu corpo com gotas de uma melodia invisível.

Lyfa chega e solta um grunhido leve e agudo, ela sabe que eu não estou bem. Toco em seus pelos e sussurro uma canção élfica: o código.

A loba corre enquanto sinto o cheiro de terra úmida. Pego o meu arco e, em menos de três segundos, os dois Elfos estão mortos.

Revisto os corpos para conseguir mais informações. Foram enviados por Süer. Ele não desistiu da caçada.

Coloco-os em um tronco encoberto por folhas. Observo atentamente a região enquanto Lyfa se diverte com os gravetos que envolvem o cenário odioso da morte. Ela consegue encontrar um pingo de felicidade nesse rio de fuga e desilusão. Um medo que persegue cada pedaço do meu ser: eu poderia nunca desistir? Ou estaria, lentamente, deixando a maldade de Süer penetrar os poros de minha pele?

Precisamos encontrar abrigo antes do amanhecer.

Apressamos o passo e encontramos uma gruta em um terreno coberto por rochas em uma superfície seca, morta. Paramos e ficamos neste local até o anoitecer.

***

“’Estou sendo perseguido’, eu penso ao ouvir o som de lobos. As folhas das árvores se movem em um vulto invisível aos olhos comuns. Lyfa uiva desesperadamente enquanto a alcateia adquire a forma élfica. Uma figura surge em meio à neblina suave da noite. Um Elfo com um arco apontado para a fogueira: – Você não vai precisar de luz. – Diz ele.”

Então o transe acabou.

Não acontecera ainda, afinal.

Ao anoitecer seguimos nossa viagem até chegar a um vilarejo completamente queimado. Não havia vida naquele lugar. Senti o cheiro da dor e o som do desespero. Lyfa tentou localizar algum sinal de vida. Nada encontrou. O único som era da nossa respiração. A Luz que reinava era a dos nossos olhos.

Encontrei um pedaço de pergaminho rasgado e sujo ondulando no ar sem vida e sem esperança.

Procuram-se aventureiros!

Oportunidade de acumular riquezas e glória nas terras além do Portal de Koloss. Apenas para os mais destemidos e poderosos heróis do império!

Aliste-se!

Portal de Koloss.

Ouvia histórias da Lyfalia sobre esse lugar. Um grande Portal de pedra negra gravado com runas desconhecidas, onde os que entram jamais retornam.

Sinto um aperto no peito, Lyfa sabe o que eu pretendo fazer. Ela uiva como se estivesse se despedindo de algo. Eu sussurro a canção do Sol e da Lua quando, de repente, observo o meu reflexo no portal.

Seria apenas um reflexo?

Seria meu pai?

Lentamente adentro o Portal e imagino se as tropas de Süer me seguiriam ao inimaginável.

“Vale o risco”, eu penso.

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