O que eu encontrei naquela gaveta me fez pensar em coisas para além da minha imaginação. Detalhes de um passado que eu acabei por deixar adormecido, de uma vida que nunca poderia ser minha, mas que no fundo sempre esteve ao meu alcance.
Naquela manhã acordei com a música The sound of silence martelando na minha cabeça. As gotas de chuva ressoavam de uma maneira única e eu ainda podia sentir o cheiro da terra molhada pela casa. Percorri o quarto como se estivesse procurando algo. Talvez fosse a minha solidão, grande companheira desde o ocorrido. Talvez fosse apenas vontade de encontrar pedaços de mim mesmo. Talvez fosse.
Peguei no cabideiro um casaco para colocar por cima do pijama. O toque na lã me levou ao dia em que meu nonno debruçou seu último abraço sobre o meu. Naquele dia, naquele momento e naquele abraço, pude reestruturar cada pedaço da minha existência. Um pouco da minha cura, um pouco de divindade aos meus sentidos.
Senti algo dentro de um bolso interno. Uma chave.
Com poderia estar naquele casaco? O que poderia ter levado-a até aquele lugar? E, naquele momento corri. Corri como uma criança em dia de brincadeira na escola. Fui em busca de respostas, de lugares, de sensações… De alguém que queria nascer nas nuvens.
Passei pelos cômodos da casa com tanta velocidade que já não me importava em derrubar algo. Era como se eu estivesse inteiro novamente, como se a solidão não se fizesse mais presente em minha vida.
Então cheguei na sala de chá, lugar favorito do meu nonno. Lá estavam, no mesmo lugar que ele havia deixado, seus livros e suas memórias. Corri com os dedos na estante até encontrar a gaveta. A gaveta dos sonhos, dizia ele. Naquele lugar ele construía histórias, deixava canções, escritos repletos de encantamento… E meu nonno os lia para mim com uma emoção tão grande! A sua voz era como canto de rouxinol aos meus ouvidos.
Peguei a chave e lentamente a introduzi na fechadura. O som da abertura era como uma melodia de gerações… Ao sentir o fundo da gaveta, percebi que havia um envelope, selado com a inicial do meu nome.
Sentei na poltrona e abri cuidadosamente a carta. Percorri os dedos nos pontos de uma maneira única. Como se estivesse tocando piano. E eu o encontrei naquelas palavras.
O que podemos ver, escreveu ele, é a mais pura poesia. Não basta ter cores, ter estrelas, ter aparências, o que podemos ver vai além. Além de qualquer sentido. Quem consegue ver a essência, a autenticidade das coisas, pode ver o universo, o divino.
O divino.
Naquele instante eu lembrei do dia em que ele se foi. Nunca foi tão difícil não poder ver… Mas agora, agora eu tinha nas minhas mãos uma verdade imutável: eu poderia ser quem quisesse. Uma nuvem de calças, como o filósofo Thoreau.
E então eu pude enxergar.
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